Laerte Coutinho

Laerte Coutinho

Cartunista, Desenhista

Nascimento: São Paulo, São Paulo, 10 de junho de 1951

Última atualização: 2 de outubro de 2026

Laerte Coutinho é considerada uma das mais importantes cartunistas brasileiras, conhecida por personagens como os Piratas do Tietê, Overman e Hugo Baracchini/Muriel. Cursou o Curso Livre de Desenho da Fundação Armando Álvares Penteado, concluído em 1968, e iniciou o curso de jornalismo na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo em 1969, sem concluí-lo. Em 1970, começou a desenhar profissionalmente o personagem Leão para a revista Sibila.

Início de carreira e atuação sindical e política

Ainda na década de 1970, fundou com Luiz Gê a revista Balão e colaborou com as revistas Banas e Placar. Em 1974, realizou seu primeiro trabalho para um jornal, a Gazeta Mercantil, e no mesmo ano passou a produzir material de campanha para o antigo Movimento Democrático Brasileiro (MDB); no ano seguinte, contribuiu com cartões de solidariedade ligados ao movimento de auxílio a presos políticos. Também em 1974, venceu o 1º Salão Internacional de Humor de Piracicaba com a charge “O Rei Estava Vestido”.

Em 1978, criou histórias do personagem João Ferrador para publicação do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, atuação que a levaria a fundar a agência Oboré, especializada em material de comunicação para sindicatos; por essa agência publicou, em 1986, o livro Ilustração Sindical, com mil ilustrações, quadrinhos e caricaturas de uso livre por entidades sindicais. Fez também cobertura jornalística de três Copas do Mundo, em 1978 e 1986 para O Estado de S. Paulo e em 1982 para a Folha de S.Paulo.

Consolidação como quadrinista

No fim da década de 1980, publicou tiras e histórias em quadrinhos nas revistas Chiclete com Banana (editada por Angeli), Geraldão (editada por Glauco) e Circo, todas da Circo Editorial, que mais tarde lançaria sua própria revista, Piratas do Tietê. Em 1985, publicou seu primeiro livro, O Tamanho da Coisa, coletânea de charges. A partir de 1991, a Folha de S.Paulo passou a publicar diariamente a tira dos Piratas do Tietê, vínculo que se mantém desde então, e ao qual se somaram, a partir de 2014, charges políticas para o mesmo jornal.

Ao lado de Angeli e Glauco, e mais tarde também de Adão Iturrusgarai, Laerte desenhou a tira coletiva Los Três Amigos. Entre seus personagens mais conhecidos estão ainda Overman, paródia de super-herói, Hugo Baracchini, Suriá (uma das raras personagens negras em quadrinhos brasileiros voltados ao público infantil) e, mais tarde, Muriel/Hugo, personagem crossdresser cujas tiras passaram a abordar o cotidiano da população trans no Brasil.

Atuação em televisão, cinema e teatro

Laerte também atuou como escritora para outras mídias, tendo colaborado com diversos programas humorísticos da Rede Globo, como TV Pirata e as primeiras temporadas de Sai de Baixo, além do quadro Vida ao Vivo, exibido dentro do Fantástico em 1997. Escreveu também o programa infantil TV Colosso e o roteiro do filme Super-Colosso: A Gincana da TV Colosso. Em 2010, participou do roteiro e do storyboard do curta de animação Los Tres Amigos, premiado com o Troféu HQ Mix.

Perda pessoal e mudança de fase na obra

Em 2005, Laerte perdeu um de seus três filhos, Diogo, então com 22 anos, em um acidente de carro; o episódio é apontado como um marco que levou a mudanças significativas em seu estilo e em sua obra, que a partir de então se tornou menos centrada em personagens fixos e mais voltada a um tom reflexivo.

Identidade de gênero e visibilidade trans

Em entrevista à Folha de S.Paulo em 2010, Laerte revelou publicamente que havia passado a praticar crossdressing e a se identificar como mulher transgênero, explicando também por que havia abandonado alguns de seus personagens anteriores. A partir desse momento, tornou-se uma figura de grande visibilidade midiática sobre o tema no Brasil, participando de entrevistas, documentários e debates públicos sobre identidade de gênero. Em 2012, tornou-se cofundadora da ABRAT (Associação Brasileira de Transgêner@s). No mesmo ano, foi protagonista do curta-metragem Vestido de Laerte, dirigido por Cláudia Priscilla e Pedro Marques, vencedor de melhor curta e melhor direção no Festival de Cinema de Brasília; em 2012, sua história de vida também foi registrada pelo Museu da Pessoa, com o título Ser Homem é uma Prisão. Em 2015, participou do documentário De Gravata e Unha Vermelha, de Miriam Chnaiderman, sobre pessoas trans, travestis e adeptas do crossdressing, e, em 2017, sua trajetória pessoal e artística foi tema do documentário Laerte-se, codirigido por Eliane Brum e Lygia Barbosa.

Em 2016, Laerte moveu ação judicial contra a Editora Abril, a rádio Jovem Pan e o jornalista Reinaldo Azevedo, em razão de críticas feitas a uma charge sua sobre manifestantes favoráveis ao impeachment da então presidente Dilma Rousseff; em 2021, obteve decisão favorável, com indenização por danos morais que anunciou doar à Associação Mães Pela Diversidade.

Reconhecimento

Laerte foi premiada com o Troféu HQ Mix em diversas edições e recebeu, na 5ª edição do Troféu Angelo Agostini (1989), o prêmio de melhor desenhista, concedido pela Associação de Quadrinistas e Caricaturistas do Estado de São Paulo. É também agraciada com a Ordem do Mérito Cultural, condecoração do governo federal brasileiro. Em 2021, por ocasião de seus 70 anos, lançou um site com acervo digital de grande parte de sua obra, organizado por décadas.

Seu filho, Rafael Coutinho, também é quadrinista.

Referências externas

Bibliografia complementar

  • ANTOLOGIA Brasileira de Humor. Vol. 2. Porto Alegre: L&PM, 1976. p. 27-32
  • GOIDA; KLEINERT, André. Enciclopédia dos Quadrinhos. Porto Alegre: L&PM, 2011. p. 269-270. (link)
  • NAVEGA, Télio. Os Quadrinistas. Campinas: Zarabatana, 2015. p. 78-83. (link)
  • WILLIAN, Wagner. Flerte da Mulher Barbada. São Paulo: Veneta, 2016. p. 46-53. (link)